O meu nome é Ana, tenho 25 anos, e a certeza de qual foi o dia mais feliz de toda a minha vida.Nasci numa família pobre, com mais de 10 irmãos. Era a mais nova, logo a menos importante. Todos os meus irmãos tinham já força para ajudar o nosso pai, ou idade suficiente para pedir, roubar ou casar. Todos menos eu. Era tratada como um fardo, uma despesa extra, e nunca como filha. Não conhecia mais ninguém para além da nossa barraca, porque em redor apenas havia mais ladrões, drogados ou criminosos mais perigosos, e não me atrevia a sair de casa. Não sei se se pode chamar-lhe casa, pois não tinha àgua, nem gás, nem luz e esgotos nem pensar. Passava o dia no meu cobertor a pensar como seria se fosse como os outros meninos e meninas, os mais ricos, os que passeavam e riam e brincavam e iam à escola.
Um dia o meu pai trouxe um jornal velho, que agarrei rapidamente. Vi na capa umas imagens coloridas que me cativaram. Perguntei à minha mãe o que eram e ela leu: "Concurso de sonho, participe! Se ganhar concretizaremos todos os seus sonhos durante um dia. Para todas as idades. Valor de participação 1€", e ao acabar de ler deita o jornal para a nossa lareira improvisada. Sorri abertamente. Numa quarta-feira, quando todos estavam fora, corri para fora de casa com um anel que a minha me havia ofercido quando tinha apenas 5 anos. Vendi-o a um homem feio, por 2€ apenas e corri para a papelaria mais próxima. Com a ajuda de uma velhinha, preenchi duas inscrições e voltei para casa.
A semana seguinte foi passada como de costume. Fechada, sem nada para fazer e sozinha. E sozinha estava quando de repente entra um homem de fato na barraca, e olhando em volta com cara de quem quer desatar a fugir, disse-me:
-És a Ana? Foste tu que te inscreveste no nosso concurso de sonho?
-Sim... - respondi.
-Então parabéns! Durante um dia serei obrigado a satisfazer todos os teus desejos!
Expliquei ao bom homem que queria passar um dia na escola e embora me tivesse estranhado, lá me levou.
E esse foi sem dúvida o dia mais feliz da minha vida. Aliás, acho que esse foi na verdade o primeiro dia da minha vida! Aprendi a ler e a escrever muitíssimo rápido. Aprendi os números. Fiz amigos e brinquei, brinquei até cair para o lado. Foi fantástico!
Depois voltei à minha monótona vida, mas os meus recentes amigos iam visitar-me todos os dias depois das aulas, e traziam-me as lições. E graças a ter passado esse dia na escola, hoje sou médica, rica e popular. Hoje posso dizer seguramente, sou feliz!


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