Um dia, ia andando alegremente pela rua. Com dois sacos de compras numa mão, e a trela da minha cadela na outra. Entrei na loja de animais para comprar uma coleira nova. A Pita, nome da minha cadela, fazia dois aninhos.Ao sair, aconteceu. Dei um valente encontrão num homem. Moreno, olhos verdes, estão a ver a situação? Digna de filme. Apanhei as compras, mas a Pita fugiu-me da mão. O homem correu atrás dela. Não teve que ir muito longe. Ela tinha parado perto de um labrador castanho, lindíssimo. A minha cadela era também um labrador, mas bege.
O homem começa a chamar: "Gato! Anda cá Gato!". Primeiro pensei que era doido. Mas a seguir pensei: "Bem, é giro, e ninguém é perfeito", então resolvi dizer: "Meu senhor, é uma cadela e chama-se Pita". O homem desatou-se a rir. Quando o cão castanho se chegou a ele ainda este se ria a bandeiras despregadas. E eu no chão, agachada, a apanhar as compras e a olhar com ele com cara de parva. Ele esclareceu-me "Gato, é o nome do meu cão. E o meu é Miguel", e foi assim que tudo começou.
Passámos a ir à loja de animais até quando não era preciso. Os nossos cães é que saíram a ganhar. Prendas a torto e a direito! Um dia encontramo-nos por acaso (ou será que não?) num show de cães. Lá, havia uma espécie de creche para os cães. Deixamos lá os nossos e fomos assistir ao show. Foi super divertido. Trocamos números de telemovel e um beijo na face como despedida. Fomos buscar os cães de mão dada. O responsável disse: "Este casalinho não se largou! Imaginem o que fizeram no meu recinto? Exactamente! Aqui mesmo! E ninguém os conseguia separar!". Eu e o Miguel rimo-nos sem perceber bem do que o homem falava. Apenas uma semana depois, quando a minha cadela começou a ficar estranha é que percebi.
Levei-a ao veterinário e confirmou-se. A Pita estava à espera de bebés! Telefonei ao Miguel e contei-lhe. Combinamos depois um lanche num parque com relva e espaço para o Gato e a Pita correrem. Foi uma tarde esplendida. Comemos um gelado enquanto o Gato trazia prendas à Pita. Desde discos e bolas que roubava às crianças até um cachorro quente que tirou ao vendedor. Ficou zangado, mas pagámo-lhes e não deu mais problemas. Como o cão era fofo para a minha menina.
Eu e o Miguel observávamo-los de perto enquanto discutíamos nomes para os cachorrinhos. Estávamos sentados numa mesa de piquenique, quando, durante risos e risotas as nossa mãos se tocaram. Ficamos a olhar um para o outro. Aproximamo-nos devagar, sentindo o momento. Em vão, pois quando era a hora H como se custuma dizer, o Gato salta para cima da mesa e lambe-me a cara toda. Fartamo-nos de rir. O nosso amor estava a acontecer, mas as peripécias e coincidências melhoraram tudo. Em vez de um namoro assumido e lamechas, nós tínhamos uma amizade colorida, mas divertida.
Nesse dia fomos os quatro jantar a um restaurante chinês. A risota foi uma constante, pois não agarrávamos nada com os pauzinhos! Foi hilariante, e mais uma vez, nada foi forçado. Nem beijos nem conversas embaraçadoras. Parecíamos dois adolescentes a curtir a vida. Mas ele tinha vinte e um e eu vinte. Ficamos com imensa fome, mas pouco importou. Despedimo-nos sem combinar mais nada. Tínhamos optado por confiar no destino. E este, mais uma vez, não nos falhou.
Encontramo-nos dois dias depois no super mercado. A Pita ficou aos pulos ao ver o Gato, e o meu coração ao ver o Miguel. Estava a apaixonar-me. Combinamos ir ao cinema nessa noite, desta vez sem os cães. Vimos o que se recomenda, uma comédia romântica. Sempre de mãos dadas rimos durante todo o filme. Ele levou-me a casa. Despedimo-nos como sempre, mas quando eu ia a entrar ele puxa-me e dá-me um beijo. E desta vez não na cara. Mas na boca. Foi curto, mas bom. Entrei, com um sorriso na cara, não conseguia escondê-lo, e se tentasse seria inútil. Era de orelha a orelha! Atirei-me para cima da cama e a Pita saltou comigo. Adormeci assim. Sem sequer vestir o pijama.
Na semana seguinte não nos vimos nem nos contactámos. Quando já estava a pensar o pior, ele liga-me e combina uma ida à discoteca, da qual ele iria ser o DJ. Aceitei, claro. Estava mesmo empolgada. Não sabia o que vestir. Já não tinha quinze anos. Telefonei à minha prima de dezassete. Foi a minha casa, pois considerámos aquilo, uma emergência. Ela abriu o meu armário e disse-me algo assim: "Ana, vives em que século? Nada disto é in! Temos que ir às compras!". Não me deu margem para lhe dizer que faltavam apenas cinco horas para o encontro.
Fomos ao shopping. Entramos numa loja de roupa, claramente, para adolescentes. Tentei dizer-lhe que idade eu tinha, não que ela não soubesse, mas apenas para recordá-la. De pouco, ou de nada me serviu. Mostrou-me uma saia. Poderia chamar-lhe mini-saia, mas se o fizesse estaria a mentir. A saia era mais, mini-mini-mini-saia! Abanei a cabeça em sinal de desacordo. E apontei para a zona das calças. A minha prima bufou, como quem diz, "és sempre a mesma coisa!". As calças compridas estavam muito perto de mim, mas não o suficiente para me escapar dos corsários. A minha prima pegou em quatro e empurrou-me para a cabine de prova. Provei-os. Achei surpreendente o facto de eu não gostar deles, mas achar que me ficavam lindamente! A minha prima viu-me com eles, um a um e disse apenas "Levas os de ganga". Para ela, escolher a roupa era algo muito profissional, e nem esboçava um sorriso. Andava sempre com um ar superior. Depois fomos para a secção das camisolas. "Uma branca ou uma vermelha, escolhe", foi isto que ela disse, mas começou a pegar num monte delas antes de eu poder responder. Mais uma vez lá fui eu de encontro à já minha conhecida cabine de prova. Em relação às camisolas estava disposta a ser eu a escolher. Depois de provar todas, e de mostrá-las à minha prima, disse "Quero esta branca! É a que eu gosto mais...", ao que ela respondeu "Tudo bem podes comprá-la, mas vais usá-la noutro dia que não hoje. Levas esta vermelha para a festa". Ela podia só ter dezassete anos, mas tinha um grande poder de persuasão. Tive que levar as duas mais os corsários. Quando pensei que aquela montanha russa ia acabar, voltei a surpreender-me. A minha prima empurrou-me, literalmente, para dentro do cabeleireiro. A mulherzinha começou a cortar aqui e ali e eu já nem podia ver...
Mas no fim daquela odiseia, tenho que dar a mão à palmatória, eu estava estonteante. Chamámos um táxi rapidamente, e entrei, não antes da minha prima me dar mil conselhos, como se aquela fosse o meu primeiro encontro. Mas o certo é que não parava de me perguntar: "Como será que vai correr?", "Vai acontecer alguma coisa de extraordinário?", "Vamos finalmente começar a namorar?", mas as respostas não fluiam tanto e tão depressa como as perguntas...
Mas no fim daquela odiseia, tenho que dar a mão à palmatória, eu estava estonteante. Chamámos um táxi rapidamente, e entrei, não antes da minha prima me dar mil conselhos, como se aquela fosse o meu primeiro encontro. Mas o certo é que não parava de me perguntar: "Como será que vai correr?", "Vai acontecer alguma coisa de extraordinário?", "Vamos finalmente começar a namorar?", mas as respostas não fluiam tanto e tão depressa como as perguntas...
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Bem espero tenham gostado, porque vou fazer uma pequena malandrice que por vezes gostava que certos escritores fizessem, só para variar. Não vou continuar a história, mas vocês vão! O início já á está, agora basta pensar num final, ver as ideias em conflito, lutando para premanecer nas nossas mentes, como pequenas criancinhas a ver quem fica com o melhor lugar... Vá lá! Sejam criancinhas, sonhem! Que mal tem sonhar? :)


2 comentários:
Temos aí uma verdadeira escritora. E é bem justo esse paralelo entre os cães e vocês. Os cães são mesmo assim, têm uma relação profunda e analógica connosco. Também é verdade que quando 'confiamos no destino', estamos abertos, é que as 'coisas' mais autênticas e válidas aparecem. Mais uma vez parabéns.
Hum... que coisa deliciosa... é tão bom sentir que o destino está a nosso favor... pena que nem sempre ele nos dá essa honra... não posso sentir que alguém me desafia a escever, que não fique logo cheia de vontade... mas neste estilo nunca experimentei... teria de pensar muito bem no caso... talvez numa próxima visita, quem sabe?
Muitos parabéns... adorei a tua imagem da luta entre as palavras... eu sinto mais como se inicialmente tivesse umas quantas ideias e depois se seguisse um vazio, e ao vazio se seguisse o momento em que todas as ideias que eu tinha se encaixam e formam um todo harmonioso...
E já agora... os gajos que se armam em DJs têm qualquer coisa de especial não têm? Eh, eh, eh!! Beijinhos e muitos parabéns!
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